Papo com os campeões – Sergio Buzzi

Dando sequência as entrevistas com os ganhadores dos 5 estilos do 7o Concurso Nacional das Acervas, agora foi a vez do Sergio Buzzi, ganhador do estilo Russian Imperial Stout.

1- O que significa ter ganho o concurso das Acervas?
R- Cara, fazer cerveja caseira por si só já representa muita coisa pra mim. Imagina ganhar um ouro no concurso Nacional!!!
A cerveja caseira apareceu num momento da minha vida que eu estava passando por um sério problema pessoal que afetou minha família e meu trabalho. Quando eu comecei a fazer cerveja em casa e descobri o mundo das cervejas artesanais e especiais, e as histórias que vinham junto com tudo isso, foi aí que eu comecei a “voltar pra Terra” de novo e tudo foi se encaixando novamente. A cerveja artesanal me salvou! É serio.
Vencer a categoria Russian Imperial Stout me deu uma felicidade somente comparada a conquista do título brasileiro do Mengão em 2009 e ao nascimento dos meus dois filhos.
Quando a cerveja ficou pronta, eu falei pra minha esposa: “Não sei se vamos ganhar algum prêmio, mas, com certeza essa é a melhor cerveja que eu já fiz.”
Na hora da premiação, entregaram o bronze pro Murilo da DUM, pensei… porra.. agora já era… a Petroleum é foda! Entregou a prata, ai o cara falou: “O primeiro lugar é da Acerva Carioca!”
Aí falou meu nome…. mandei um sonoro PQP!!!! CARAL……!!!! Beijei minha esposa e abracei o João Veiga que tava do meu lado (ele me ensinou a fazer cerveja caseira). Foi foda! Uma das maiores felicidades da minha vida.

2- Qual você acredita que tenha sido o grande diferencial da sua Russian Imperial Stout para as outras concorrentes do estilo?
R- Bom, eu acho que cerveja artesanal vai mais além da técnica e de água, malte, lúpulo e fermento. Ela trás tb uma história vivida, algum sonho, alguma experiência, uma lenda, enfim, tem que ter algo por trás de toda boa leva. Eu sou um cervejeiro bem simplista. Não gosto muito de inventar técnicas ou me aventurar em diversos tipos de fermento, por exemplo. Faço o trivial nas minhas brassagens.
A Orestes Imperial Stout nasceu logo depois que eu fiz minha primeira leva há dois anos atrás. Foi o seguinte:
Tenho um grande amigo, o Ulysses, carinhosamente conhecido como Bolão que é um cara muito tranquilo, amigo de todo mundo, sem inimigos, que, porém, quando bebia (ou ainda bebe, rs) ele se transforma literalmente em outra pessoa, extremamente chata, antipática nível dez! Por conta disso ele ganhou um segundo apelido, somente usado quando ele está transformado: Orestes, em homenagem àquele personagem de uma novela das oito que enchia a cara e saía batendo nos amigos, na família…
Então, qndo começou essa história de cerveja lá em casa eu falei pra ele que iria fazer uma cerveja para homenageá-lo e que ela seria escura (pq o Bolão é negro), com alto teor alcóolico e se chamaria Orestes. Ele dava risadas mas tb ficava sem graça, pq ele não gosta do Orestes!!! Mas não tem jeito.. vez ou outra o Orestes aparece e odeia todo mundo!
Quando eu soube do concurso em Piracicaba e que um dos estilos era RIS, eu pensei: “Agora eu faço a Orestes!”
Fui lá fazer minhas pesquisas, tracei uma receita simples dentro do estilo, mas alguma coisa tava faltando pra linkar com a dupla personalidade do sujeito homenagedo.
Foi então que a ACerva Carioca promoveu um workshop com o Paulo Schiaveto sobre a Doppelbock e a Imperial Stout. O Paulo, dispensa comentários… o WS foi maravilhoso e lá ele falou em maturação em barril de carvalho, o que me atraiu bastante. Fiz várias perguntas pra ele de como era, como fazia e tal e resolvi tentar a técnica já nessa leva. Foi a primeira e única vez que fiz maturação em barril de carvalho.
Realmente, encaixou. Era o que eu estava buscando pra dar mais personalidade pra receita, que nasceu por causa de uma história de dupla personalidade!

3- Como foi fazer essa cerveja? Quais foram as suas referências e preocupações?
R- Foi como sempre é, e deve ser: divertido! Filmei, tirei foto, tomei uma cerveja entre uma rampa e outra… mas, tb, um dia especial porque além de ser cerveja pra concurso era tb cerveja em homenagem a um amigo. Assim que acabei de resfriar e transferir pro fermentador, liguei pro Bolão e falei: “acabei de fazer a Orestes! Vai ficar show essa cerveja!”
A leva fermentou legal, sem problemas, durante 7 dias. Depois foi pra maturação no balde.
Minha preocupação agora era achar um barril de carvalho, pequeno. Lembrei de outro grande amigo, o Paulinho (amigo dos meus pais inicialmente!) e fui até a casa dele pois sabia que ele tinha um barrilzinho com cachaça.
Expliquei pra ele o que estava fazendo e se ele poderia me emprestar seu barril durante uns meses. Inicialmente ele assustou: “Vai fazer cerveja no barril???” “Pode levar, na condição de me trazer umas garrafas depois!!!” Trato feito, transferi uns 3 lts pro barrilzinho e esqueci ele lá na geladeira por uns 2 meses, sempre provando, pois tinha a oxidação como uma preocupação, mas acabou não dando nada errado. Ficou igual um licor! Uma delícia. Foi quase um litro só de provinha.. rssss Ao final da maturação fiz os testes de blend com a restante que maturou no balde. Fiz um blend de 3 partes pra 1 que ficou ao meu gosto. Engarrafei algumas e o resto foi para um Cornélius, que acabou na praça depois da premiação!

4- Pretende compartilhar a receita?
R- Pretendo sim. Segunda feira eu vou repetir a receita, fazer um ajuste ou outro no processo e disponibilizar pra galera. Mas já adianto que não tem segredo não. Tem que ser feita com verdadeiro amor pelo cervejeiro!

Só pra finalizar, assim que a poeira abaixou lá na premiação, a primeira pessoa que eu liguei pra agradecer foi pro Paulinho e pro Bolão. Se não fosse por eles, essa cerveja não existiria!


Uma Resposta a Papo com os campeões – Sergio Buzzi

  1. Pingback: Cobertura do concurso – Fuggles Beerblog.com.br « Rotenfuss Bier

Deixar uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

*

Pode usar estas etiquetas HTML e atributos: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>